Estamos a poucos dias do 2º turno das eleições presidenciais 2026 e isso colocou a Reforma Tributária novamente no centro das discussões econômicas. Enquanto o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) defende a continuidade da implementação do novo sistema, o senador Flávio Bolsonaro (PL) propõe rever pontos da reforma, incluindo o split payment e a alíquota do Imposto sobre Valor Agregado (IVA).
As propostas alimentam dúvidas entre empresários que tentam decidir se devem manter seus investimentos ou esperar por possíveis mudanças.
Para quem administra uma empresa, a incerteza vai além da disputa política. A decisão de comprar equipamentos, ampliar a equipe, reformar uma loja ou reajustar preços depende de custos, receitas e previsibilidade. Quando as regras tributárias entram nessa equação, alguns empresários preferem adiar decisões até conhecer os próximos passos do governo.
Essa cautela pode fazer sentido em determinadas situações. No entanto, transformar a espera por definições políticas em estratégia de negócios também tem um preço. A empresa pode perder oportunidades comerciais, pagar mais caro por equipamentos, atrasar projetos e ceder espaço para concorrentes que continuam investindo.
Por isso, a recomendação é não tomar decisões com base apenas em promessas eleitorais. O caminho mais seguro envolve avaliar a legislação vigente, calcular diferentes cenários financeiros e preparar a empresa para ajustar sua estratégia quando houver mudanças concretas.
Promessas eleitorais não alteram as regras tributárias
A possibilidade de revisão da Reforma Tributária ganhou força durante a campanha presidencial. Entre os pontos em discussão estão a alíquota dos novos tributos sobre o consumo, o período de transição e o funcionamento do split payment, mecanismo que prevê a separação e o recolhimento de tributos no momento da liquidação financeira de determinadas operações.
Entretanto, uma proposta de campanha não equivale a uma mudança na legislação. Dependendo do conteúdo, a alteração pode exigir aprovação do Congresso Nacional, mudança em lei complementar ou, em determinadas situações, emenda constitucional. Outros aspectos operacionais podem admitir ajustes por meio de regulamentação, desde que respeitem as normas em vigor.
Na prática, isso significa que o resultado das urnas não garante uma redução de impostos, a extinção de um mecanismo de arrecadação ou a suspensão do cronograma da reforma.
Uma empresa que interrompe sua preparação com base em uma promessa pode descobrir, meses depois, que precisa retomar o trabalho às pressas. Além do custo de reorganizar processos, a correria aumenta o risco de erros fiscais, falhas nos sistemas e dificuldades para cumprir as obrigações tributárias.
O empresário precisa acompanhar as propostas políticas, mas deve separar três situações: o que os candidatos prometem, o que o governo pode alterar dentro de suas competências e o que depende de aprovação legislativa.
Adiar investimentos pode custar mais do que o esperado
Imagine uma pequena indústria que planeja comprar uma máquina para aumentar sua capacidade de produção. O equipamento custa R$ 100 mil e permitiria atender novos pedidos, reduzir desperdícios e diminuir o tempo de fabricação.
O empresário, porém, decide esperar até o fim das eleições, na expectativa de que o próximo governo reduza impostos ou altere as regras tributárias. Durante a espera, a empresa perde uma oportunidade de fornecimento e continua gastando com um processo de produção menos eficiente.
Se a nova máquina permitir uma economia hipotética de R$ 5 mil por mês, seis meses de adiamento representam R$ 30 mil em economias que a empresa deixou de obter. O valor não inclui eventuais reajustes no preço do equipamento nem a receita que os novos pedidos poderiam gerar.
O exemplo mostra que a espera também envolve riscos financeiros. O empresário precisa comparar o possível benefício de adiar a compra com o custo de manter a operação atual.
Isso não significa que toda empresa deva investir imediatamente. Se o negócio enfrenta queda nas vendas, dívidas elevadas ou falta de capital de giro, adiar uma compra pode ser a decisão mais responsável. A diferença está no motivo: uma coisa é suspender um projeto porque os números não fecham; outra é paralisá-lo esperando uma mudança política que ainda não aconteceu.
Contratações e expansão também entram na conta
A mesma lógica vale para a contratação de funcionários e a ampliação das atividades.
Uma empresa que recebe mais pedidos pode precisar de novos profissionais para cumprir prazos e manter a qualidade do atendimento. Se adiar a contratação apenas porque espera uma possível redução dos encargos trabalhistas, corre o risco de perder vendas, sobrecarregar a equipe atual e prejudicar o relacionamento com os clientes.
Por outro lado, contratar sem avaliar a demanda pode elevar a folha de pagamento e comprometer o caixa caso as vendas não se confirmem.
O ideal é trabalhar com projeções. O empresário pode calcular o custo da contratação, estimar a receita adicional e avaliar se a operação continua viável em cenários de crescimento, estabilidade ou queda nas vendas.
O mesmo raciocínio se aplica à abertura de filiais, à compra de veículos, à modernização de sistemas e à ampliação do estoque. Antes de interromper qualquer projeto, vale identificar quais decisões dependem diretamente de uma mudança tributária e quais continuam fazendo sentido nas condições atuais.
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Preços: esperar pode prejudicar a margem de lucro
A Reforma Tributária também exige atenção à formação de preços. As mudanças no sistema de tributação sobre o consumo podem afetar custos, créditos tributários, contratos e margens de diferentes maneiras, conforme a atividade e o regime tributário de cada empresa.
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Nesse cenário, adiar toda revisão de preços até que as regras estejam completamente definidas pode comprometer a rentabilidade. Se os custos operacionais aumentarem enquanto os preços permanecerem congelados, a empresa poderá vender mais e, ainda assim, ganhar menos.
Considere uma empresa que vende determinado produto por R$ 200. Seus custos aumentam, mas o gestor decide manter o preço até conhecer o resultado das eleições. Se a margem já era apertada, a diferença pode reduzir o lucro de cada venda e pressionar o caixa ao longo dos meses.
A solução não é aumentar os preços preventivamente com base em estimativas incertas. É revisar os custos, identificar os efeitos tributários conhecidos e simular diferentes possibilidades antes de tomar uma decisão.
Também é importante analisar contratos com fornecedores e clientes, especialmente aqueles de longa duração. Cláusulas de reajuste, condições de repasse de tributos e responsabilidades fiscais podem influenciar o resultado financeiro e merecem avaliação contábil e jurídica.
Como o contador pode ajudar a reduzir os riscos
Diante das incertezas, o contador tem papel importante na avaliação dos investimentos e na preparação da empresa para a transição tributária. Mais do que interpretar normas, o profissional pode ajudar o empresário a entender como cada cenário afeta o lucro, o caixa e a capacidade de crescimento.
Uma das primeiras medidas consiste em elaborar projeções financeiras com diferentes hipóteses. A empresa pode considerar a manutenção das regras atuais, a aprovação de mudanças específicas e a possibilidade de aumento de custos durante a adaptação aos novos procedimentos.
Essas simulações ajudam a responder perguntas práticas: a compra continua viável? O negócio consegue absorver uma despesa adicional? Há recursos para adaptar o sistema de gestão? A empresa precisa reforçar o capital de giro antes de ampliar as operações?
O profissional contábil também pode revisar o enquadramento tributário, os cadastros fiscais, a emissão de documentos eletrônicos e os controles de créditos e débitos. Com a chegada da CBS prevista para 2027, a preparação dos sistemas e das equipes não deve depender apenas das expectativas eleitorais.
A recomendação é manter as adaptações necessárias à legislação vigente e acompanhar as mudanças oficiais para identificar quando um ajuste de processo se tornar necessário.
Planejamento deve considerar diferentes cenários
Em vez de apostar em uma única previsão para o futuro, a empresa pode dividir suas decisões em três grupos.
Investimentos necessários: despesas relacionadas à continuidade da operação, ao cumprimento das obrigações legais e à prevenção de perdas. Esses projetos devem seguir o planejamento, com os ajustes exigidos pela realidade financeira.
Investimentos com retorno comprovado: compras e ampliações que apresentam viabilidade mesmo sem mudanças tributárias. Nesses casos, o empresário deve comparar o retorno esperado com os custos e riscos de esperar.
Investimentos dependentes de definições futuras: projetos cujo resultado muda significativamente conforme a alíquota, o tratamento tributário ou uma regra ainda em discussão. Aqui, pode fazer sentido aguardar informações mais concretas antes de assumir compromissos irreversíveis.
Essa divisão evita decisões precipitadas e reduz o risco de paralisar toda a empresa por causa de uma incerteza específica.
Também vale preservar uma reserva de caixa para imprevistos, revisar o orçamento com frequência e manter contato com fornecedores e instituições financeiras. Quanto mais preparada estiver a empresa para diferentes cenários, menor será a necessidade de tomar decisões às pressas.
Esperar pelas eleições não substitui o planejamento
O resultado das eleições pode influenciar os rumos da política econômica e o debate sobre a Reforma Tributária. No entanto, a implementação das mudanças, as negociações políticas e os procedimentos legais podem levar tempo. Não existe garantia de que uma promessa de campanha se transforme na regra esperada pelo empresário.
Por isso, a decisão de investir ou esperar deve considerar o impacto financeiro de cada alternativa, e não apenas a expectativa sobre o próximo governo.
Uma empresa bem administrada não precisa prever com exatidão o que acontecerá na política. Precisa conhecer seus números, entender os riscos e manter capacidade para reagir às mudanças.
O maior risco não está necessariamente em investir antes das eleições, mas em deixar oportunidades passarem sem calcular quanto essa espera pode custar. Com planejamento financeiro, acompanhamento contábil e atenção à legislação, os empresários conseguem tomar decisões mais conscientes sem apostar o futuro do negócio em promessas ainda não concretizadas.
Fonte
jornalcontabil.com.br


