Aprovada com o objetivo de simplificar a cobrança de impostos no Brasil, a Reforma Tributária já começou a desenhar um novo cenário econômico e, no centro dessa engrenagem, está o profissional da contabilidade. 

Longe de ser apenas um executor de guias e obrigações acessórias, o contador agora assume um papel estratégico fundamental para a sobrevivência e competitividade das empresas durante o período de transição.

A mudança estrutural, que substitui tributos antigos pelo Imposto sobre Bens e Serviços (IBS) e pela Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS), exige que a categoria mude sua postura de forma imediata. 

Para especialistas do setor, o planejamento deve começar agora, antes mesmo da implementação total do novo sistema. Veja a seguir como deve agir o profissional contábil agora.

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O primeiro passo para o contador que deseja se destacar — ou evitar prejuízos para seus clientes — é o investimento pesado em atualização profissional. Como as leis complementares e os regulamentos específicos ainda estão sendo consolidados, acompanhar os textos técnicos e participar de cursos voltados ao novo modelo de Imposto de Valor Agregado (IVA) é indispensável.

Além de entender a nova legislação, o profissional precisa realizar um “pente-fino” na atual estrutura fiscal das empresas que atende. Isso inclui revisar o cadastro de mercadorias, mapear a cadeia de fornecedores e entender o impacto que o fim dos incentivos fiscais regionais causará no fluxo de caixa de cada cliente.

O papel de consultor estratégico

Com a unificação dos impostos, a automação dos processos operacionais tende a crescer. Isso significa que o contador burocrático perderá espaço, dando lugar ao contador consultor.

“O cliente não vai buscar o contador apenas para calcular o novo imposto, mas para saber como a empresa dele deve se posicionar no mercado para não perder margem de lucro”, aponta o setor de estudos tributários.

O profissional deve agir antecipadamente, desenhando simulações de cenários para os próximos anos. Demonstrar para o empresário o impacto real da transição nas finanças do negócio é o que transformará o contador em um parceiro de negócios indispensável.

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Tecnologia como aliada

A transição para o novo modelo tributário será digital e focada em dados integrados em tempo real. Por isso, outra ação imediata que os escritórios e profissionais devem tomar é a auditoria de seus próprios sistemas de tecnologia da informação (TI).

Adequar os softwares de gestão (ERPs) e treinar as equipes internas para lidar com a convivência simultânea dos dois modelos de tributação (o antigo e o novo) será o grande desafio operacional do curto prazo.

Ações concretas para implementar no dia a dia 

1. Diagnóstico de impacto financeiro (simulação de cenários)

Não espere a transição começar para descobrir o novo custo da empresa. O contador já pode pegar o faturamento dos últimos 12 meses do cliente e aplicar as alíquotas estimadas do novo Imposto sobre Bens e Serviços (IBS) e da Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS).

  • Na prática: Se você atende uma empresa de serviços que hoje recolhe 3,65% de PIS/Cofins (regime cumulativo) e 5% de ISS, mostre ao cliente como ficará o caixa dele quando a alíquota migrar para a estimativa padrão de 26% a 28%, mas agora gerando créditos sobre os insumos.

2. Saneamento do cadastro de produtos (NCM e alíquotas)

O novo modelo tributário será baseado fortemente no destino e no tipo de produto ou serviço. Erros de classificação fiscal que passam despercebidos hoje serão fatais no novo sistema.

  • Na prática: Crie uma força-tarefa para revisar toda a lista de mercadorias (NCM) dos clientes. Identifique quais produtos farão parte da “Cesta Básica Nacional” (com alíquota zero), quais terão redução de 60% (como saúde e educação) e quais estarão sujeitos ao “Imposto Seletivo” (o chamado imposto do pecado, para produtos prejudiciais à saúde ou ao meio ambiente).

3. Revisão da cadeia de fornecedores

Como o novo IVA (IBS/CBS) funciona no sistema de créditos financeiros (a empresa só abate o imposto se o fornecedor anterior tiver pago), a escolha de quem seu cliente compra vai mudar.

  • Na prática: Analise se os fornecedores atuais dos seus clientes são optantes do Simples Nacional ou do regime regular. Explique para o empresário que comprar de fornecedores do regime regular gerará mais créditos no novo sistema, o que pode exigir uma renegociação de preços ou troca de parceiros comerciais para manter a competitividade.

A reforma não é um problema apenas do contador; ela afeta o comercial, o setor de compras e a TI da empresa.

  • Na prática: Agende reuniões estratégicas com a diretoria dos clientes para explicar que o setor de compras precisará entender de créditos tributários e que o setor comercial precisará readequar a tabela de preços de venda, já que o imposto não será mais calculado “por dentro” (imposto sobre imposto).

5. Auditoria de contratos de longo prazo

Contratos de prestação de serviços ou fornecimento que duram muitos anos e vão atravessar o período de transição precisam de cláusulas de barreira.

  • Na prática: Revise os contratos vigentes dos clientes e inclua cláusulas de equilíbrio econômico-financeiro. Isso garante que, se a carga tributária subir ou descer por conta da transição do IBS/CBS, o preço do contrato possa ser reajustado legalmente sem gerar disputas judiciais.

O futuro é consultivo

Diante de um cenário de transição complexo e sem precedentes na história econômica do país, fica evidente que o papel do contador foi definitivamente ressignificado. 

O profissional que se limitar a cumprir rotinas burocráticas correrá o risco de obsolescência, enquanto aquele que dominar as novas regras e aplicar as ações práticas de transição se consolidará como o principal parceiro estratégico das empresas. 

A Reforma Tributária não representa apenas o fim de antigos tributos, mas o início de uma era onde a inteligência de negócios e a antecipação de cenários ditam quem sobrevive e quem prospera no mercado brasileiro.


Fonte

jornalcontabil.com.br

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